quarta-feira, 13 de abril de 2011

O fim

Ele está parado em pé, lá na terra de ninguém, o homem da meia-noite, rodeado por fantasmas. A terra suja irrita seus pés nus, porque ele não trouxe nada consigo. Não, ele não. Não o homem da meia-noite, aquele que se ergue quando não há mais nada entre uma pessoa e o abismo, tendo apenas os punhos como armas, nada além do que ele precisa. O homem da meia-noite pega um punhado de terra com a mão e a deixa escapar entre os dedos. Então tudo volta, a razão de ele estar ali, que tanto tem a ver com seu nascimento. Ele lembra do calabouço, do sorriso do outro, tão vil. Mas logo veio a queda, o abismo e o labirinto. Então foi coroado rei, sem ter onde reinar. O rei das ruínas, todos se ajoelhem perante o rei! Mas seus súditos são todos fantasmas, criados por ele mesmo em sua mente doentia. O homem da meia-noite não tem virtudes, apenas desejos, fantasias que jamais verão a luz do dia, porque ele só sabe ir em frente. Não há nada dentro dele, naquela camada mais escura, apenas perseverança. Tudo pela missão. Mas sem sempre foi assim. Ele costumava ter uma alma, que agora se fragmentou em diversas partes, espalhadas pelos quatro cantos do reino pedido. Era essa a barganha, fuga em troca de dor, e não havia outra escolha. Não para o homem da meia-noite, tão escondido lá fundo, gritando para ver a luz do dia. Aquela luz que queima, seu toque causando arrepios, tão fria. Tão quente. O homem da meia-noite leva as mãos aos lábios, tentando imaginar o gosto do morango, tão vermelho e tentador. Essa é a cor. Vermelho. Mas ali, nas terras devastadas, não existe cor. Não existe vida. Só existe a estrada e dois caminhos. Um leva para frente, escuro e cheio de desafios, sempre trovejando. O outro é inconstante, hora um vale cheio de vida e hora um campo infértil como todo o resto, uma eterna promessa de algo melhor. Mas ambos são armadilhas. Pelo menos é o que diz a voz que vem de cima, um raio de luz que por um instante afasta os fantasmas. A voz convida o homem da meia-noite a permanecer ali e tentar plantar naquele solo infértil, plantar até nascer alguma coisa, porque essa é a única maneira. Mas o homem da meia-noite lembra do outro, da barganha que trouxe sua liberdade, e da missão que ele jurou cumprir. Não por honra, mas por algo muito mais assustador, que só pode fazer sentido para quem acaba de nascer. Porque ainda não há o que ser visto, não no homem da meia-noite, desprovido de alma. Assim tem início a busca, a demanda pela alma, e a voz começa com suas lições, explicando como expandir a consciência para todos os lugares do reino, sem sequer dar um passo. Logo o homem da meia-noite está em uma caverna, sem saber como foi parar lá, e bem no fundo ele acha um garotinho meio soterrado por pedras. Eles se olham por um breve momento, dois irmãos separados no nascimento, o garotinho ainda vivo apesar de estar sozinho. Com um gesto o homem da meia-noite joga as pedras para longe, descobrindo seus poderes naquele mundo, então eles correm um na direção do outro e se tornam um só mais uma vez. O único abraço que poderia dar consolo aos dois. Assim o homem da meia-noite se torna mais velho, porém ao mesmo tempo mais novo, uma nova e inexplicável criatura naquele mundo tão solitário. De fato, tudo isso já aconteceu, sim, ele lembra agora que voltou ao terreno sem vida, mas agora há uma rosa vermelha em suas mãos, quando antes só havia terra. Uma rosa tão frágil e delicada, indecisa entre desvanecer ou brotar, entre tocar e ser tocada. Por um instante ela parece que vai brotar e o homem da meia-noite observa a coisa acontecer, esperando uma instrução da voz, quem sabe um novo poder que lhe permita preservar a rosa, manter ela intacta até o campo estar fértil. Porém, a rosa começa a tremer, intoxicada pelo ar morto e parado, e então se desfaz nela mesma, virando terra outra vez. Tudo está morto de novo e o homem da meia-noite não tem idéia do que fazer com a rosa quando ela surgir outra vez. Porque ele não tem criatividade, apenas objetivos, sem nenhum método para atingir eles além de seguir em frente. De certa forma, esse é o próprio objetivo, um destino cruel. Mas ele não está sozinho. Agora ele tem o garotinho bem protegido dentro dele, mais seguro do que jamais esteve, a única companhia que os dois precisam. Talvez juntos eles possam encontrar os outros, onde quer que eles estejam, quem quer que eles sejam. Mas o homem da meia-noite só quer saber de um deles, aquele que o aprisionou, porque a rosa o fez lembrar de alguém, uma garotinha de vermelho que certa vez lhe fez um convite. Ela é a principal barganha do outro, por isso está sempre com ele, onde quer que ele esteja. Provavelmente além da Estrada do Trovão. Se dependesse dele, o homem da meia-noite pegaria aquela estrada agora, mas a voz diz o contrário. "Não siga com as pernas um caminho que se pode correr com a mente", diz ela. "E não esqueça dos outros!", completa o garotinho. O homem da meia-noite estaca. Ninguém fala mais nada, os fantasmas silenciam, as vozes se calam. Então ele acha a própria voz: "Então é isso. Aqui é o fim do caminho, onde eu faço minha última batalha, num campo de morte. Aqui é o fim e daqui nunca vou sair. Que ele venha, porque cansei de correr atrás. Que ele venha se quiser me pegar. Então vamos lutar pela última vez". Nada. Nenhuma resposta a não ser um ruído sibilante no ar, quase uma risada, embora possa ser só uma impressão. Os fantasmas se afastam, formando uma roda. É a batalha final, quando aquele mundo deixa de existir. De repente um trovão corta o silêncio e começa a chover. O palco está armado. Não há mais volta.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sem você



Eu irei para as árvores
Lá é onde eu a vi pela última vez
Mas o entardecer lança um pano sobre os campos
E nos caminhos por trás da borda da floresta
E a floresta é tão negra e vazia
Ai de mim, oh ai
E os pássaros não cantam mais

Sem você eu não posso existir
Sem você
Com você eu estou sozinho também
Sem você
Sem você eu conto as horas
Sem você
Com você os segundos param
Eles não valem a pena

Nos galhos e nas valas
Tudo é silencioso e sem vida
E a respiração se torna tão dificil para mim
Ai de mim, oh ai
E os pássaros não cantam mais

Sem você eu não posso existir
Sem você
Com você eu estou sozinho também
Sem você
Sem você eu conto as horas
Sem você
Com você os segundos param
Eles não valem a pena

E a respiração se torna tão dificil para mim
Ai de mim, oh ai
E os pássaros não cantam mais

Sem você eu não posso existir
Sem você
Com você eu estou sozinho também
Sem você
Sem você eu conto as horas
Sem você
Com você os segundos param
Eles não valem a pena
Sem você

Sem você eu não posso existir
Sem você
Com você eu estou sozinho também
Sem você
Sem você eu conto as horas
Sem você
Com você os segundos param
Sem você

Rammstein